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Mergulhando em Overseas | Desregrado disco de estreia da JNKTR vai do pop ao guitar noise

Álbum conta com nove faixas e foi lançado pela OWYES! Records.

Por Renan Pereyra | Foto: Marceli Marques

“Um acorde é legal. Dois você está forçando. Três e você está no jazz”. Essa frase foi dita certa vez pelo polêmico Lou Reed possivelmente para explicar o brilho das canções de simples estrutura. Fãs declarados do músico e de sua emblemática banda, o Velvet Underground, os Justine Never The Knew Rules têm essa simplicidade como um de seus principais motes em Overseas, primeiro full album lançado nesta segunda-feira, 17 de outubro (ouça no fim do post).

O disco, no entanto, gera um mix de sentimentos ao ouvinte e soa muito mais maduro do que o homônimo EP de estreia, de 2014 (leia nossa resenha sobre o registro aqui). A formação também é outra. Além do tradicional trio (Maurício Barros, Bruno Fontes e Marcel Marques), a guitar band sorocabana recrutou no ano passado o baterista Gabriel Wiltemburg.

O trabalho conta com nove músicas e foi lançado pela OWYES! Records, selo próprio da banda, em parceria com a Midsummer Madness. A capa, uma arte minimalista em aquarela que pode ser vista logo abaixo, é assinada pelo artista paulistano Rafael Carozzi. O disco foi produzido pela JNKTR, mixado por Marcel Marques e Gabriel Wiltemburg e masterizado por João Antunes. Já a gravação foi realizada entre janeiro e setembro de 2016 nos estúdios Mofo de Ouro e Back Studio, ambos em Sorocaba/SP.

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Em Overseas, a carregada “French Film Girl” é a responsável por dar as boas ao ouvinte, com uma inserção retirada do filme Bande à Part (1964), do cineasta franco-suíço Godard. Com uma passagem inicial marcante de aproximadamente quatro minutos, a faixa flerta com influências mais recentes do quarteto, de música experimental e post-rock. A tática da introdução longa para abrir o disco me remeteu logo de cara ao Disintegration, do The Cure, que por essas e outras foi taxado pela imprensa na época de “um suicídio comercial”.

E, ao que tudo indica, a estratégia da JNKTR é de fato provocar os ouvintes menos habituados ao som mais extremo do grupo. Isso fica claro pela forma, ao meu ver completamente errônea, com que a tracklist foi escolhida. “From The Basement”, tema que dá sequencia ao registro, é talvez a música mais alternativa e anti-melódica do álbum. Com boas sacadas de voz e backing vocals, sempre comandadas por Barros e Fontes, a canção começa com uma sonoridade Sonic Youth e segue frenética até desembocar em um solo nonsense e desagradavelmente bonito.

A letra também chama bastante a atenção, pois dialoga perfeitamente com as frases musicais: Ghost, there is a ghost inside my head / Will not you talk to me, my friend? / There’s a magic guitar player in the low frequencies / There’s a dirty sound in my ears / How it sounds like? / Just noise and dark”. Em seguida o disco quebra completamente seu ritmo com “Muff”, uma espécie de “Walk On The Wild Side” versão shoegaze. Apesar de ser gravada apenas com vozes/guitarras, a distorção suja continua lá sob o incessante verso “I have a muff in my head”.

Aí é quando Overseas começa a ficar especialmente empolgante. “Cat Song”, faixa com uma pegada mais noventista, mostra que o JNKTR soa grandioso quando opta por canções mais íntimas, talvez subjetivas, desde sua letra até a produção. A música conta com uma levada melancólica e guitarras sutis que poderiam facilmente terem sido criadas por James Iha ou retiradas de alguma faixa do disco de estreia do Stone Roses. Mas aqui tudo soa perfeitamente bem: os vocais suaves de Bruno Fontes, os timbres ondulados do baixo e da bateria, a cobertura do violão, o solo viajante e chapado de guitarra.

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E toda essa beleza encontrada em “Cat Song” é aprofundada em “Just Like Yesterday”, minha preferida do disco. A música começa com uma linha bem elaborada de baixo e é logo tomada por um riff que me coloca pra baixo de uma forma bastante positiva. As duas faixas, aliás, dialogam muito bem. Mas existe uma explicação pra isso. Overseas é composto por músicas de todas as fases da banda e ambas foram criadas logo no início, quando a banda ainda procurava um nome. “Por ser o nosso primeiro álbum, costumamos dizer que é uma compilação de nossas composições preferidas desde 2013 até aqui”, explicou Fontes ao site da Midsummer.

Talvez isso explique também o fato do álbum contar com músicas tão impactantes e diferentes entre si. Isso pode ser notado, no entanto, principalmente nas apresentações do grupo, sempre marcadas por muita energia, psicodelia e flerte com o audiovisual em projeções insanas. Voltando ao disco, ele prossegue com uma linha levemente triste e de riffs bem sacados em “Get Out”, com destaque para o último apaixonante refrão, marcado por backings bem projetados e uma vibe meio Yuck, uma das referências do quarteto.

Já “77º F”, faixa mais curta com pouco menos de dois minutos, é um registro instrumental e lisérgico e parece servir de introdução para a impressionante e barulhenta “Coming Down”. Guitarras intensas e ares noise pop caracterizam a oitava faixa do álbum, que foi lançada como single pelo Blog do Asteroid no ano passado. Na ocasião, “Coming Down” ainda veio acompanhada do belo clipe abaixo.

De lá pra cá, muita coisa aconteceu. E eu pude acompanhar de perto o complexo processo de criação de Overseas: noites em claro, incessantes sessões de ensaio e gravação, discordâncias e muitas audições. Mas tudo para se chegar à sonoridade única e imprescindível que o álbum apresenta. Como resumiu Maurício Barros via Facebook: “O rock e o amor são os combustíveis da minha vida. E foi de corpo e alma, meses a fio, que tentei sintetizar isso na forma de música ao lado das melhores pessoas e amigos (apesar de quase nos matarmos durante todo o processo haha) que eu poderia ter em uma banda. Esse disco é um resumo de nossas vidas. Escutem no volume máximo!”.

Enfim, o álbum se encerra com a hipnotizante “16”, que transa lindamente com o post e o math rock, além de vocais que remetem ao Silversun Pickups. Assim como a faixa de abertura, foi uma das últimas músicas compostas pelo grupo – e que portanto representa o momento mais atual do quarteto. Como resumiu um release da banda, a canção “conta com uma estrutura menos convencional do que as outras e um riff segue ecoando na mente mesmo após seu fim”.

Não posso finalizar esse texto sem dizer que, quando ouvi “Cat Song” pela primeira vez – antes mesmo de sua edição final, fiquei orgulhoso em fazer parte dessa cidade que respira arte. E sabia que um registro importante estava por vir. Overseas é a prova de que Lou Reed estava certo. Às vezes a simplicidade das coisas é o que as torna geniais e belas. E é exatamente essa a impressão que o álbum passa: músicas descomplicadas, honestas, homogêneas e com poucos acordes. Mas que são capazes de tocar a alma e mexer com os sentimentos mais profundos de quem as ouve. Vida longa aos desregrados da Justine!

Ouça Overseas:

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