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Um domingo embriagante com Incesto Andar, Walkstones e Terno Rei. Veja resenha e fotos!

por | 10 fev 2017 | Blog, Resenha/Shows | 0 Comentários

Chuva, sol, ventania e casa cheia. Veja como foi.

Texto: Renan Pereyra | Fotos: Marceli Marques

Domingo (5 de fevereiro) foi um dia pra encher o coração de esperança sobre os novos rumos que tem tomado a cena alternativa sorocabana. Teve sol, chuva, ventania, roqueiros da nova e velha geração curtindo juntos, casa lotada, catuaba dupla por apenas seis golpes e, no palco, três bandas muito peculiares: Incesto Andar (que vem se consolidando como um dos principais nomes do cenário local), Walkstones, que surpreende pela pouca idade dos integrantes e habilidade de lidar com situações adversas, e a Terno Rei, que joga o dream pop, o post-rock e a música brasileira no mesmo liquidificador e transforma tudo numa receita assustadoramente impecável.

A tarde começou com um clima bastante descontraído e ensolarado, embora – pouco tempo depois – isso fosse mudar. No entanto, nem a chuva surpresa e nem a ventania bizarra foram suficientes pra fazer com que sequer um cidadão arredasse o pé dali. A primeira a subir ao palco do Asteroid, por volta das sete, foi a Incesto Andar, que tem como trabalho mais recente o EP Deusverno (2015), com duas faixas. Uma delas é a empolgante “Wasabi”, que foi escolhida para abrir a apresentação. A outra, uma espécie de hino do quarteto, intitulada “Sensacional”, como de costume, para encerrar.

Músicas mais antigas, como “Noz”, que dá nome a um EP de 2014, também fizeram parte do repertório. Mas o destaque ficou por conta de três faixas inéditas: “Minha”, segunda executada, a melancólica “Gengivite” e a ligeira “Peixes”. Depois de uma fase turbulenta, parece que a Incesto Andar precisava mesmo de um choque de ideias para realocar seus demônios. Afinal, após quase ter encerrado as atividades, o grupo ressurge entrosado e a incrível performance no Asteroid deverá servir para colocar os pingos nos is.

Um dos pontos altos da apresentação foi a regulagem geral, timbre e harmonização das guitarras, que me fizeram lembrar dos Smashing Pumpkins na época de ouro, com Corgan e Iha em plena forma. Saca só o setlist que os caras mandaram.

1. Wasabi
2. Minha
3. Diesel
4. Colecionador
5. Gengivite
6. Peixes
7. Noz
8. Sensacional

Só deu tempo de fumar uns dois cigarros na parte externa e já ouvimos os primeiros acordes secos da Walkstones, jovem promessa da Manchester Paulista que joga com She Alienn (voz/guitarra), Mattheus Ferreira (voz/guitarra), Leonardo Sabino (baixo/voz de apoio) e Caio Lobo (bateria). O quarteto – que fez o show mais barulhento da noite – é adepto da nova-velha cena do-it-yourself norte-americana, que ataca principalmente pelos lados da California e incomoda os mais virtuosos e conservadores. Esse suspiro garage-punk tem como referência nomes como Ty Segall, Thee Oh Sees e Fidlar.

Tudo soa propositalmente tosco na Walkstones, o que acaba por ser o grande charme do grupo. Desde as linhas de guitarra, que por vezes parecem ter saído do Veni Vidi Vicious (2000), do Hives, até as batidas secas e marteladas da bateria. Está tudo ali. Um destaque fica por conta do incrível entrosamento vocal de She Alienn (que entrou há poucos meses na banda) e Matt Ferreira. Outro: as linhas bem sacadas e strokeanas do baixista Sabino, que poderia ser facilmente confundido com um integrante do MGMT.

Na performance, a Walkstones apresentou todas as faixas que estarão em seu novo EP, gerando um grande bate-cabeça na pista: “Bottle Of Age”, “Anchorage”, “Waves And Clouds”, “Army Chose Me” e “Chocolate Ball Candy Truffle”. Do EP de estreia, Dark Turns Blue, rolou: “Stone Beating Heart” e “Dark Turns Blue”. E ainda sobrou um tempo para mandar um cover da desrespeitosa “Cocaine”, do Fidlar. Visceral. Como nem tudo são flores, devo acrescentar que a Walkstones ainda comete erros desnecessários, como descuido com afinação e compasso, mas que são completamente compreensíveis pela pouca experiência de palco. O show foi finalizado com muita microfonia e baquetadas hardcore de Caio Lobo. Abaixo algumas fotos e o setlist feito a mão de forma tosca, é claro.

Aí foi a vez do Terno Rei subir ao palco. A impressão que tive, durante todo o show, foi de estar ouvindo o disco, de tão impecável: cozinha harmoniosa, guitarras concentradas, timbres cintilantes, compassos precisos e vocais e backing vocals na medida. Tocando músicas principalmente do disco recém-lançado Essa Noite Bateu Como Um sonho (2016), que apareceu em diversas listas de melhores do ano em blogs e sites que respeitamos, o grupo provou porque tem sido considerado um dos grandes nomes do novo cenário underground brasileiro.

A performance teve início com “Desconhecido” e seguiu com outras canções do disco mais recente, como “Depressão na Pista de Dança”, um indie tupiniquim bem sacado, e “A Prosa”. Do mesmo registro, rolaram ainda a tristonha e belíssima “Sinais”, “Chegadas e Partidas” (me faz lembrar o rock nacional oitentista) e “Litoral”, que cheira a Sonic Youth. Apesar do tom melancólico de todas essas faixas, o público se manteve bastante vibrante e cantando durante a maior parte o tempo. As duas faixas do EP Trem Leva Minhas Pernas, de 2015, também fizeram parte do setlist: a própria “Trem Leva Minhas Pernas” e “Neblina”, que contou com uma performance emocionante.

Ainda teve tempo para outras quatro músicas de Essa Noite Bateu Como Um sonho, tocando assim o registro quase que na íntegra: “Criança”, bastante reverenciada, “Circulares”, “Da Janela” e “Para o Centro”, que também empolgou muito os fãs. Para fechar, o quinteto finalmente se embebedou de nostalgia e optou pela clássica “Luz de Bem”, única faixa tocada do disco Vigília (2014). A música é marcada pelas guitarras viajantes que ora beiram a psicodelia setentista, ora remetem ao rock alternativo noventista. E foi assim, com a luz de bem chegando, que a banda se despediu sob muitos aplausos, mas prometendo voltar em breve. “É sempre incrível tocar nessa cidade”, garantiram. E disso nós sabemos muito bem. Veja setlist e fotos do Terno Rei abaixo.

Confira todas as fotos do evento aqui.

1. Desconhecido
2. Sinais
3. Depressão na Pista de Dança
4. A Prosa
5. Chegadas e Partidas
6. Trem Leva Minhas Pernas
7. Litoral
8. Criança
9. Circulares
10. Neblina
11. Da Janela
12. Para o Centro
13. Luz de Bem

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