Escolha uma Página

Entrevista: Jonathan Tadeu

por | 7 maio 2017 | Blog, Entrevistas | 0 Comentários

Músico se apresenta no Asteroid neste domingo (7).

Por Renan Pereyra

Jonathan Tadeu é um cara foda. Integrante do irreverente coletivo Geração Perdida, de Minas Gerais, ele é um dos caras mais ativos da atual cena mineira. Com três discos na bagagem (Casa Vazia – 2015, Queda Livre – 2016 e Filho do Meio – 2017), o músico caiu na estrada recentemente com Vitor Brauer, da Lupe de Lupe, e é atração do Asteroid nesse domingo (7 de maio). Aproveitamos a ocasião para trocar uma ideia com o cara sobre a turnê e sobre seu novo disco. Confira!

———————————————————————————————————————————

Asteroid – Em Filho do Meio (2017), seu novo disco, as guitarras noventistas dão lugar aos sintetizadores e uma levada mais moderna e eletrônica. Essa mudança tem a ver com o que você tem escutado atualmente?

Jonathan Tadeu – Eu gosto muito de tentar coisas novas. O Casa Vazia, Queda Livre e o Filho do Meio são bem diferentes se você ouvir eles na ordem. Tô sempre explorando ritmos que me agradam. Não conheço muito de música eletrônica, mas sou obcecado com alguns artistas que embarcaram nessa. O The Eraser, do Thom Yorke, o último do Frank Ocean e o disco do Mark Kozelek com o cara do Album Leaf foram decisivos pra mim.

“Eu só tenho a música”. Essa é uma frase de impacto de “Sorriso Amarelo” que, confesso, me deixou completamente arrepiado ao ouvi-la pela primeira vez. Isso porque me identifico bastante. Ao mesmo tempo, a letra fala sobre racismo e empoderamento. Queria que explicasse um pouco mais sobre esse contexto. A música é o que te mantém pulsando? Sua válvula de escape?

Obrigado pelo elogio. Fico muito feliz quando recebo crítica positiva do disco, principalmente dessa música. 2016 foi um ano muito louco. Eu não esperava que o Queda Livre fizesse tanto barulho. Consegui botar o disco em um monte de listas, fiz umas 3 turnês durante o ano, toquei no maior festival independente de BH. Eu consegui tudo isso sempre gastar 1 centavo com produtor, sabe. Sem padrinhos musicais, sem nada. Apenas a música. E só deus sabe quantas vezes fulano veio até o meu Facebook perguntar como eu tinha feito pra sair em tal site, o que eu tinha feito pra conseguir tocar fora de BH. Uai, meu amigo, eu gravei um disco e as pessoas gostaram! O que tem de absurdo nisso?! E vou te falar, em 99% dos casos quem chega em mim com esse papo é músico branco classe média, cheio dos equipamentos brutos. O cara deve pensar: “eu gravo meu disco lo-fi com minhas Fenders de 10k, pago 5k de divulgação e esse neguinho consegue mais atenção?!” É quase um insulto, né? Existe uma separação de classe muito pesada nisso que o povo chama de cena. Só que é tão sutil, tão velado, que metade da galera não percebe e a outra finge de besta.

Li recentemente que no disco você e o João Carvalho gravaram grande parte do disco de forma caseira, inclusive usaram até um celular para captar vozes. Isso é bem foda de imaginar, se considerarmos que muitas bandas às vezes deixam de lado alguns processos por conta da falta de grana. Esse é o caminho do underground?

É melhor produzir com o que você tem do que ficar esperando dinheiro cair do céu. Ser independente pra mim é isso. Mas tem que ser muito autocritico. Eu sempre falo isso com a galera que tá começando e usa o lo-fi como desculpa pra fazer tudo desleixado. Eu gravei as músicas no celular porque sabia o que tava fazendo. Eu poderia ter gravado com microfone normal, mas foi nossa escolha fazer tudo sem um encontro físico.

Você tem esse lance de cantar em português e de uma forma bastante subjetiva, verdadeira. O que te inspirou a explorar esse formato?

Cara, não sei. Eu sempre cantei assim. Não sei nada de técnica vocal, nunca li sobre métodos de composição. Eu só sento no computador e faço. Minhas maiores influências vocais são songwriters gringos. Mark Kozelek, Mark Linkous, Elliott Smith, Kurt Cobain, Cat Power, Julian Baker, David Bazan. Sou fascinado por artistas que cantam a própria vida. Quanto menos camadas entre autor x obra, melhor.

Como você enxerga o atual cenário alternativo nacional, estamos em um bom momento?

10 anos atrás era mais difícil fazer a sua música sair nos lugares, e nessa época todo mundo já tinha banda larga e rede social, né, então eu acho que tá melhorando. Banda boa sempre existiu. O Brasil nunca teve uma fase musical ruim, isso é coisa de saudosista chato. Bom mesmo vai ser quando a cena independente, aquela que não tem patrocínio de cerveja, conseguir se sustentar. Nada contra quem tem patrocínio, eu sei que a gente depende muito disso, mas seria melhor se todos nós, produtores, selos e músicos, conseguíssemos girar a roda sem nenhuma corporação. Quando os selos conseguirem grana pro artista produzir clipe, quando o público comparecer em peso nos eventos em casa de show pequena, quando todo mundo conseguir tocar no Sesc sem ter de pagar 3 mil pra assessoria de imprensa, quando o dono de teatro responder os meus e-mails do mesmo jeito que responde o de uma banda hypada, aí sim, teremos uma cena realmente independente.

A turnê Sem Sair Na Rolling Stone, em parceria com o Brauer, já tem mais de 50 shows marcados. Isso é inspirador, de alguma forma, pra qualquer banda independente que pretenda cair na estrada. Como se deu esse processo de agendar uma tour tão extensa?

A culpa é toda do Vitor. Em 2015 eu viajei com a Lupe de Lupe, eu estava lançando o meu primeiro disco solo, ele teve a gentileza de incluir 3 músicas minhas em todos os shows da turnê. No final do ano passado ele me jogou essa ideia de viajar os juntos novamente. Seriam shows solo, mas aí eu tive a ideia de produzir um documentário sobre a viagem, o Fernando Motta entrou no time e então o Brauer lançou essa ideia louca de 2 guitarras + bateria. Tem sido muito muito divertido.

Qual é a sua expectativa para o show no Asteroid? Conhece algo da cena sorocabana?

Cara, tô bem animado. Me chamaram pra tocar aí no ano passado mas não deu tempo. Tocar pela primeira vez em algum lugar é sempre uma felicidade imensa. Não conheço as bandas daí, tô curioso pra conhecer a galera.

0 comentários

Diga algo! Adoramos saber a sua opinião.

Pin It on Pinterest